Só se eu estiver morto…

O texto abaixo foi escrito pelo Prof. Robert A. Strauss, presidente do Colégio Americano de Cirurgia Oral e Maxilofacial e publicado no triple oral de dezembro último. Veja aqui o texto na íntegra.

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_Só se eu estiver morto um cirurgião oral irá remover uma glândula submandibular de um paciente!

“Em 1980, como residente do primeiro ano em Cirurgia Oral e Maxilo-facial (OMFS), essas palavras ecoavam enquanto eu observava um antigo cirurgião otorrinolaringológico de pé na frente, ou melhor, bloqueando a porta de entrada para a nossa sala de operação. O chefe dos residentes, tendo sido bem treinado no procedimento e sentindo-se confiante de que ele seria bem auxiliado pelo seu assistente, rapidamente concordou com suas exigências e, após passar pelo velho, sorriu e perguntou qual a forma de morte que ele preferiria, de modo que pudéssemos preparar adequadamente.

Foi um momento decisivo na minha carreira. Fiz duas decisões aquele dia. A primeira era que eu seria total e integralmente treinado em todo o âmbito da minha especialidade. Eu queria fazer muito mais do que tirar dentes e reparar as fraturas de mandíbula ocasionais. A segunda foi que, estando muito bem treinado, eu não permitiria que ninguém dissesse o que eu podia ou não podia fazer na minha carreira profissional, desde que fosse legal e que me sentisse confortável sobre realizar o procedimento lidando com qualquer complicação possível….”

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Como vocês podem ver era uma fase decisiva para a escalada da especialidade da cirurgia oral americana rumo ao sucesso. Ninguém precisa dizer que o Dr. Robert alcançou o esperado status profissional que almejava mas, porque ele estaria lembrando disso agora, após mais de 3 décadas?

Na verdade este texto (leia a íntegra) é um desabafo de quem tanto lutou pela especialidade e agora vê seus residentes saindo das pós-graduações e se dedicando a vida de consultório ou, mais especificamente, à extração de cisos e instalação de implantes.

O lamento do Professor Robert é o de quem sabe da importância da presença do cirurgião oral nos hospitais, e com atuação plena, para o futuro da especialidade. Pois, se hoje a cirurgia oral americana possui um status médico invejável é devido a pioneiros e desbravadores como ele.

No Brasil estamos lutando pela consolidação da Odontologia Hospitalar. Que esta, junto com a já estruturada Cirurgia Bucomaxilofacial, galguem os degraus que ainda são precisos para restabelecer o prestígio e a estima que a Odontologia merece. E que este nunca se perca, como também teme o Prof. Robert lá nos EUA.

Hospital de Angola necessita de médicos estomatologista e anestesista; e o que isso tem a ver com a Odontologia Hospitalar

A interessante notícia disponível aqui, coloca o Médico Estomatologista (o Cirurgião Dentista de Angola) em pé de igualdade com o Anestesista. Ainda não entendi direito porque esse tipo de estratificação da saúde humana seguiu diferentes caminhos pois, em alguns países a Odontologia é parte da Medicina, em outros, como o Brasil, é uma profissão distinta. Pelo que sei, o padrão europeu em geral era de união das duas áreas mas, nos EUA, a Odontologia se estruturou a parte da Medicina e criou-se um novo padrão, que acabou sendo copiado por outros países. Não tenho absoluta certeza disso e apreciaria comentários esclarecedores.

Outra coisa que não compreendo é a dificuldade de CDs brasileiros em enxergar a Odontologia como uma área médica de fato, independentemente se há ou não separação entre as duas profissões. Ter que explicar a importância que o conhecimento médico tem para o CD moderno não é tarefa simples. A maioria não visualiza a necessidade da farmacologia, fisiologia, clínica médica e patologia geral ensinadas de forma plena ao estudante de Odontologia. Porém, se este aluno futuramente tiver que atuar na área hospitalar, junto a pacientes complexos ou tendo que realizar diagnósticos de alta especificidade, ele certamente vai lamentar a falta do conhecimento básico, o qual precisará buscar por conta própria.

A Odontologia brasileira começará uma nova etapa de reconstrução com a criação da habilitação em Odontologia Hospitalar. Quem sabe com a formação destes novos profissionais a profissão não muda o seu rumo? Os novos postos de trabalho precisarão ser ocupados com profissionais comprometidos com a área e que saibam da importância que ela tem para a reconstrução da profissão.

Residência Multiprofissional em Odontologia Hospitalar (UTI) – Sergipe

Inscrições para residência em UTI no Hospital Cirurgia
Residência Multiprofissional em Terapia Intensiva Adulto
(Foto: Arquivo Portal Infonet)

O Hospital de Cirurgia anuncia que estão abertas as inscrições para a Residência Multiprofissional em Terapia Intensiva Adulto. São duas vagas para cada uma das profissões do programa — Fisioterapia, Enfermagem, Odontologia e Serviço Social. As inscrições vão até o dia 5 de janeiro de 2015. O candidato pode se inscrever através do site, onde também está disponível o edital do concurso para mais informações. Os aprovados receberão, pelo período de dois anos, uma bolsa do Ministério da Saúde no valor de R$ 2907,00.

Sobre a Residência Multiprofissional

A Residência Multiprofissional tem caráter interdisciplinar e oferece ensino e atendimento odontológico, fisioterápico, de enfermagem e serviço social aos pacientes internados nas duas Unidades de Terapia Intensiva do Hospital de Cirurgia, além de atuar decisivamente na recuperação daqueles que passaram por procedimentos cirúrgicos, contribuindo para a diminuição dos tempos de internamento e otimizando a reabilitação.

Cada vez mais a assistência ao paciente em UTI é feita de forma multiprofissional. A publicação da Resolução N° 7 da Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, que tornou obrigatória a presença nas UTIs de vários profissionais da área da Saúde, tais como cirurgiões dentistas, assistentes sociais e fisioterapeutas, entre outros, só fez acentuar a necessidade de preparar tais profissionais para atuar de maneira integrada.

Os residentes do Serviço de Odontologia Hospitalar atendem a pacientes internados nas UTIs do Hospital de Cirurgia, contribuindo para a redução do tempo e dos custos de internação e aumentando a oferta de leitos. Pacientes entubados podem vir a desenvolver pneumonia, uma das maiores causas de mortalidade em UTIs, e os cuidados com a saúde bucal diminuem em até 70% a incidência dessa patologia, de acordo com dados da literatura internacional e comprovados pela Comissão de Controle de Infecções Hospitalares do HC.

O Serviço de Fisioterapia também atua na recuperação e reintegração dos pacientes, contribuindo para a diminuição dos tempos de internação e otimizando a reabilitação; apenas na UTI Cardiológica, o tempo médio de internação passou de 12 para 7 a 8 dias.

O profissional de Serviço Social desenvolve, em conjunto com uma equipe multiprofissional, uma interação comunicativa essencial, colocando em prática sua disponibilidade interna para se envolver em ações recíprocas pessoa-a-pessoa e o compromisso de usar a comunicação como um instrumento terapêutico.

Já o foco do enfermeiro intensivista é aplicar o Processo de Enfermagem, instrumento que direciona o profissional a tomar decisões, gerenciar e avaliar o cuidado de enfermagem ao paciente crítico, desenvolvendo ações nas áreas de gestão, ensino, pesquisa e assistência e possibilitando a sistematização da prática assistencial individualizada e integral.

Sobre o Hospital de Cirurgia

O Hospital de Cirurgia, fundado em 1923, é um Hospital Geral, com serviços terciários de referência para o Sistema Único de Saúde em atendimentos ambulatoriais, de média e alta complexidade para todo o estado de Sergipe. Mantido pela Fundação de Beneficência Hospital de Cirurgia, é o maior prestador de serviços ao SUS no Estado de Sergipe.

Fonte: http://www.infonet.com.br/saude/ler.asp?id=167051

O caráter orgânico da Medicina”

Fonte: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=21971:conselho-federal-de-medicina-cria-novas-areas-de-atuacao-medica&catid=3

Conselho Federal de Medicina cria novas áreas de atuação médica

Além das Medicinas do Sono, Paliativa e Tropical, que passam a existir oficialmente, também foram ampliadas as áreas de atuação de Medicina de Dor e da Hepatologia

A Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) 1973/2011, publicada no Diário Oficial da União desta segunda-feira (1º), cria três novas áreas de atuação médica: medicina do sono, medicina paliativa e medicina tropical. Área de atuação é um ramo de especialidade médica. Ao ingressar em programa de residência da especialidade infectologia, por exemplo, o profissional pode, a partir de agora, receber treinamento adicional específico na área de medicina tropical.

“Mudanças nas características de determinados ramos da medicina exigem adaptações de nomenclatura e de distribuição das atenções profissionais; isso é próprio do caráter orgânico da profissão”, avalia Carlos Vital, 1º vice-presidente do Conselho e membro da Comissão Mista de Especialidades. A resolução nº 1.973/11 foi aprovada pelo CFM e entra em vigor na data de sua publicação.

Medicina paliativa– A resolução do CFM associa a área de medicina paliativa às especialidades clínica médica, cancerologia, geriatria e gerontologia, medicina de família e comunidade, pediatria e anestesiologia. De acordo com a médica Maria Goretti Sales Maciel, diretora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE) de São Paulo, a criação da área traz mais visibilidade a um tipo de trabalho médico que já existe e é realizado com rigor científico.

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Medicina tropical– A área de atuação medicina tropical, vinculada à especialidade infectologia, é dedicada ao estudo e tratamento de doenças como malária, febre amarela, dengue, esquistossomose e leishmaniose, típicas de regiões tropicais. Na avaliação do médico Juvêncio Dualib, chefe do setor de infectologia do Hospital de Heliópolis, em São Paulo, a especialidade é derivada do campo de estudo da medicina tropical, mas atualmente abrange um vasto número de doenças.

(…)

Outras mudanças– Com a resolução publicada nesta segunda, a área de atuação dor, que era associada somente às especialidades anestesiologia e neurologia, passa a ser associada adicionalmente a acupuntura, medicina física e reabilitação, neurocirurgia e ortopedia e traumatologia. Além disso, a especialidade medicina legal passa a ser denominada medicina legal e perícia médica. Deixaram de ser tratadas como áreas de atuação: cirurgia de coluna, perícia médica, reprodução humana e medicina aeroespacial. Também houve ampliação no número de especialidades vinculadas à área de atuação hepatologia, que, a partir de agora, ainda manterá ligações com a clínica médica e a infectologia.

ANEO 2014 – O epílogo da saga da Odontologia Hospitalar

A criação deste blog, em 2008, não coincidentemente ocorreu em meio a uma confluência de fatores favoráveis à necessidade de ampliação da visão do CD sobre os conceitos médicos que norteiam a Medicina Oral. Neste ano foi apresentado o projeto de lei 2776 que recomendava a Odontologia em UTIs e também neste ano deu-se a união de esforços em prol da Odontologia no meio hospitalar, em encontro no HEMORIO. Começava o primeiro capítulo de uma luta ideológica ferrenha entre campos diferentes de visão sobre o que representa a Odontologia como área da saúde e como profissão.

De um lado estavam os CDs de visão ampla que entendem a Odontologia como uma especialidade médica que, apesar de apresentar-se como uma profissão a parte, têm obrigações, direitos e deveres idênticos aos egressos das faculdades de Medicina, já que, como estes, são os únicos profissionais da saúde humana que prescrevem drogas, dão diagnóstico, realizam procedimentos invasivos e internam pacientes, entre outras atividades e responsabilidades.

De outro lado estavam os CDs de visão segmentada, que viam a Odontologia apenas como uma oportunidade de inserção laboral, mesmo que isso envolvesse a entrada de profissionais para atuarem em segmentos críticos sem estar devidamente preparados. Neste campo também estavam os que não se preocupavam com a questão institucional da Odontologia pois preconizavam formações de CDs por conta de entidades externas à Odontologia.

A saga teve momentos épicos em que as disputas ideológicas se expandiram e aliados foram sendo buscados de lado a lado. Em uma busca rápida de posts antigos é possível ver vários destes capítulos. Me atenho a um deles que teve importância fundamental, a entrada da SOBEP nas Comissões de Odontologia Hospitalar dos CROs.

A SOBEP e a virada

Após a criação da Comissão de Odontologia Hospitalar do Rio de Janeiro, o modelo foi exportado para todo o país, estava plantada a árvore que daria a força para a expansão de todo o movimento da Odontologia Hospitalar. Mas, em alguns pontos a influência dos CDs de visão segmentada ainda predominava e até mesmo o CFO defendia alguns de seus pontos de vista.

Como em todas as boas estórias o momento da virada ocorreu da forma mais inesperada possível pois, após inúmeros convites, a SOBEP, legítima herdeira do conceito da visão ampla médico-odontológica, surgiu após se sentir incomodada com a terminologia utilizada em algumas comissões. Porém, como boa portadora do DNA da Medicina Oral, entrou na luta como a mais importante aliada na revisão ideológica do que estava sendo proposto para a Odontologia Hospitalar, afinal ela e seus especialistas, mais do que ninguém, seriam ameaçados por uma nova pós-graduação que envolveria algumas de suas atividades e, ainda por cima, sem que tivessem formação adequada para tal.

A batalha da ANEO

Após atuarem efetivamente junto às comissões em seus últimos dois encontros, em São Paulo e em Porto Alegre, os colegas da SOBEP foram determinantes em se obter um consenso sobre a necessidade da habilitação em OH. Mas, tudo esbarrava nas atitudes evasivas do CFO que não se decidia sobre como isso seria realizado.

Em meados deste ano, todos foram surpreendidos pela convocação de mais uma ANEO. Após 12 anos centenas de CDs de todo o país se reuniriam para redefinir o mapa das pós-graduações odontológicas e os defensores da visão ampla na Odontologia Hospitalar ainda se surpreenderiam com o que estava por vir.

Tal qual nos mais bem elaborados suspenses eis que surgem três propostas contrárias ao consenso das comissões. Uma delas já se esperava, a de especialização em OH. Apesar de diferente da defendida pelo consenso, esta não representava diretamente uma ameaça à visão ampla, mas sim à Estomatologia e à OPNE, já que seria mais do mesmo. A surpresa mesmo ocorreu há apenas 3 dias da ANEO quando se soube, através da divulgação da tese central pelo CFO, que também tinham sido propostas a especialização e a habilitação em Odontologia Intensiva, legítimas representantes da Odontologia de visão segmentada.

A luta desigual deu-se nas reuniões prévias à plenária final, pois os colegas das comissões de Odontologia Hospitalar dos estados, auxiliados pelos representantes da SOBEP e reforçados por líderes institucionais de peso como o presidente do CRORJ, não deram qualquer chance para as frentes adversárias. A plenária final só corroborou o que havia sido decidido e a HABILITAÇÃO EM ODONTOLOGIA HOSPITALAR VENCEU.

Agora estamos todos juntos

Um final feliz e comprovador do quanto se pode fazer quando há uma ideologia justa, agregadora e que apresenta objetivos de bem comum para todos. Até para os colegas de visão segmentada, que agora precisam se unir aos demais no sentido de contribuir para as novas batalhas que virão. E que serão tão ou mais intensas quanto esta que se encerrou. Agora estamos todos juntos.

Comissão Mista de Especialidades na Medicina – um exemplo a ser seguido

Como foi exposto em posts anteriores, a criação de especialidades odontológicas no Brasil, sujeitas às decisões exclusivas da ANEO, apresenta uma série de problemas quanto a pertinência do processo que ao fim, resulta na criação de novas especialidades e habilitações. E a falta de análise prévia das associações de especialidades e meio acadêmico-científico quanto às novas pós-graduações é, ao ver deste portal, o principal deles.

ANEO e Comissão Mista na Medicina

Analisando a certificação das especialidades na Medicina Brasileira, vemos o quanto temos razão em expor estas argumentações. Vejam, por exemplo, a resolução CFM Nº 2.005/2012 (http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/2012/2005_2012.pdf). Notem que foi elaborada por um acordo entre a principal instituição reguladora da Medicina, o CFM, a AMB, representante das associações de especialidades, e a Comissão de Residência Médica, representando o meio acadêmico. Na Odontologia a ANEO é realizada exclusivamente pelo CFO e representantes das associações e academia tem apenas o direito a voz e voto nas assembleias. Um direito que não é exclusivo a estes representantes já que mesmo representantes de outras áreas e até mesmo indivíduos indicados pelos conselhos, sem a necessidade de titulação específica, também o tem (ver edital da ANEO 2014 e comentários em post prévio).

Não estamos expondo estes questionamentos para nos dizer contra a criação das novas especialidades e habilitações, mas é exigido um mínimo de bom senso para se concluir que o processo, da forma que é desenhado, não se aplica adequadamente ao propósito.

E, já que muitas das propostas de criação de novas formações tem clara inspiração nas especialidades da Medicina, apresentamos algumas propostas para se adequar as novas certificações em Odontologia:

1-  Criação de Comissão Mista de Especialidades com representantes das associações, CFO e meio acadêmico.

2- Todos os pedidos de criação ou extensão de especialidade ou habilitação deveriam ser submetidos inicialmente à esta comissão, antes de serem apresentados em ANEO.

3- Criação de mecanismos para estímulo ao constante aperfeiçoamento profissional para manutenção do título de especialista. A ser submetido às associações de especialidades.

4- Todas as novas habilitações devem estar vinculadas à uma titulação prévia de especialista em alguma das especialidades existentes.

Mesmo sabendo que estas propostas poderiam ter sido apresentadas em ANEO Regional, e não o foram, pela sua importância e, quem sabe, urgência, talvez merecessem consideração na análise da assembleia da ANEO em São Paulo, na próxima semana. Afinal, não desejamos que arranjos políticos (também necessários) entre os diversos interesses de criação de pós-graduações norteiem essas importantes decisões de uma forma mais proeminente que os interesses das associações de especialistas e o meio acadêmico-científico.