Atualidades em bruxismo infantil

Se há algo que dá prazer em compartilhar ideias é encontrar alguém que fale a mesma língua.

A Profa. Juliana é uma dessas dentistas que não se contentaram com o beabá da dor orofacial e foi buscar na Neurociência as explicações que a Odontologia não possuía, ou seja, bebeu da fonte da Medicina Oral.

O Portal da Medicina Oral pediu e ela autorizou a republicação desta excelente resenha sobre o bruxismo infantil.

_________________________________________

Se há um tema que adoro é bruxismo. Se há um tema que detesto é bruxismo na infância. Vai entender… Confesso que tenho até certa preguiça em conversar sobre isso. Mas diante de tanta informação desencontrada na internet e em palestras que assisti, acho que o tema merece uma abordagem aqui pelo blog.

A começar que quando verifico o que se escreve ou fala sobre bruxismo na infância, percebo que o uso da classificação do bruxismo é ainda menor. Já escrevi aqui, já falei em algumas palestras existem tipos diferentes de bruxismo! A abordagem dos pacientes difere conforme o tipo apresentado!

Pouco se sabe sobre bruxismo na infância e acho que realmente é difícil abordar estes pacientes. A maioria das pesquisas, por exemplo, utilizam como método de diagnóstico os questionários, muitas vezes com os pais, o que não deixa de ser um viés importante, por exemplo, pelos aspectos emocionais e afetivos da relação pai e filho que podem influenciar e muito nas respostas.

(Antes que vocês pensem sobre as verminoses/parasitoses e sua relação com o bruxismo, peço que leiam esta outra postagem que escrevi. Continuo com a mesma opinião, e a última pesquisa publicada sobre o assunto, veio da Índia o que reforçou a minha opinião. E não vamos mais falar disso até que nos provem o contrário!  Leiam aqui.)

Busquei algumas informações no capítulo Sleep Bruxism in Children dos autores Huynh e Cuillminault no livro Sleep Medicine for Dentist: a pratical overview para ilustrar esta postagem:

  • Baseado no relato de ranger de dentes, o bruxismo do sono é mais comum na infância (14 a 38%) do que na idade adulta (±8%)
  • A probabilidade da criança ranger ou apertar os dentes é 1.8 vezes maior se os pais estiverem conscientes dos sinais e sintomas de bruxismo
  • A probabilidade do relato de bruxismo aumenta 3.6 vezes se a criança apresenta algum distúrbio psicológico, 1.7 vezes maior se babar (isso mesmo, acho que tem relação com a respiração bucal, o que faz sentido) e 1.6 vezes se for sonâmbula.
  • Crianças com bruxismo tem 16 vezes (!) mais chances de serem ansiosos.
  • Crianças com TDHA – Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade que recebem tratamento com medicações estimulantes do Sistema Nervoso Central (SNC) apresentam prevalência maior de bruxismo (o que pode ter relação com o papel dos neurotransmissores em bruxismo, ainda não estudado em crianças). Os autores enfatizam que neste caso o bruxismo seria secundário!
  • Os fatores genéticos merecem ser mais estudados. Se um dos pais relatam apresentar bruxismo, a criança tem 1.8 vezes mais chance de ser também bruxista (vou culpar minha mãe agora pelo bruxismo e também migrânea herdados!).

Pouquíssimos estudos foram realizados com polisonografia em crianças no intuito de estudar a fisiopatologia do bruxismo do sono infantil. Um dos estudos verificou uma aumento no número de microdespertar, o que associou a problemas comportamentais de atenção. A forma como aconteceu o evento do bruxismo do sono primário é similar ao do adulto. Outro estudo realizado em 90 crianças com cefaleia, verificou associação entre bruxismo do sono e cefaleia tipo tensional.

Agora o que mais chama atenção hoje em dia tanto nos livros como nas pesquisas que pipocam por aí é a relação entre os distúrbios respiratórios e o bruxismo (neste caso o primário é agravado ou o distúrbio do sono tem como consequência um bruxismo secundário).De fato, crianças com obstrução nasal têm prevalência de 62,5% de bruxismo. E já foi demonstrado que há uma redução na prevalência após procedimentos de tonsilectomia (de 45,5 para 11,8%) e adenotonsilectomia (25,7% para 7,1%). Um estudo feito pela Universidade de Montreal com 604 crianças de 7 a 17 anos mostrou que pacientes Classe II apresentavam chance maior de relato de bruxismo (2.2 para esquelética e 1.9 para dental). Sobre isso, li no mesmo livro acima citado sobre  o papel do cirurgião dentista em detectar o paciente respirador bucal e submetê-lo a tratamento, sobretudo aqueles com atresia maxilar.

Além de tudo observado, para chegar e escrever aqui sobre este tema, li alguns artigos recentes sobre o assunto.Destaco aqui um artigo realizado no Brasil pela equipe do departamento de Pediatria e Ortodontia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicado em 2009 que avaliou a prevalência e influência dos fatores psicológicos no bruxismo infantil. Eles encontraram uma prevalência de 35.3% mas não encontraarm associação entre bruxismo, estresse ou gênero, idade e condição social. Crianças com algum tipo de neurose  ou muito responsáveis tiveram duas vezes mais chances de apresentar bruxismo do sono.

Resumindo o que li em alguns artigos: faltam artigos com critérios de diagnóstico válidos (se possível com polissonografia) para estudar o bruxismo em crianças, faltam os pesquisadores classificarem melhor o bruxismo (às vezes não sei do que estão falando, sobre bruxismo em vigília, do sono, primário, secundário…) e o papel da respiração parece ser uma linha de pesquisa interessante para mostrar que isso vai além da casualidade, afinal, quantas crianças hoje em dia não apresentam algum tipo de processo alérgico com obstrução nasal, por exemplo?

Alguém quer escrever mais sobre isso?

Fonte: http://julianadentista.com/2012/02/07/bruxismo-infantil/

_______________________________

Divulgação

Uma resposta para “Atualidades em bruxismo infantil”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *