Contenção física em Odontologia

Dois textos interessantes abordam a atuação frente a pacientes que necessitam de modalidades extremas de contenção para possibilitar o atendimento odontológico.

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TEXTO 1

Pacientes com autismo

Segundo a Associação Americana de Deficiências Mentais e de Desenvolvimento (AAIDD, em inglês), deficiências mentais são caracterizadas por limitações significativas tanto nas funções intelectuais quanto na adaptação ao ambiente, prejudicando atividades cotidianas sociais e práticas. Tal condição influencia diretamente a saúde bucal, já que pessoas com transtornos mentais dependem quase que totalmente do apoio de familiares ou de alguém responsável para a realização dos procedimentos básicos de limpeza da boca.
Entretanto, nem sempre essa ajuda é completamente eficiente, já que algumas dificuldades podem comprometer mesmo a melhor das boas vontades. É nesse ponto que a presença e o acompanhamento de um profissional da Odontologia são essenciais para uma boa saúde.
Informação e prevenção
Segundo o Dr. Marcelo Fúria César, supervisor do setor de Odontologia da AACD, a atuação do profissional da área em casos com pacientes com deficiência mental é, basicamente, a mesma da de pacientes comuns, mas com abordagens diferentes. Em ambos os casos, o foco do tratamento está na prevenção e na informação. “O odontologista tem um papel fundamental nessa conscientização, ensinando e orientando os familiares como lidar com essa dificuldade. Uma abordagem precoce é fundamental para a prevenção de problemas mais complicados”, conta.
(…)
A abordagem de pacientes com deficiência mental também precisa ser executada de forma diferenciada. Eles podem ser reativos a estímulos sensoriais (como ao barulho do motor de alta rotação e à dor repentina), podendo, até, apresentar reflexos bruscos involuntários. Para o Dr. Fúria César “[…] nessas situações, é necessária uma abordagem gradativa, visando fazer o paciente acostumar-se tanto com o cirurgião-dentista quanto aos procedimentos executados. Quando essa gradação não se mostra eficiente, é recomendado o uso de contenções físicas ou, em último caso, química (em ambiente hospitalar)”.
(…)
A Dra. Adriana Zink conta que, no caso de pacientes com autismo, sabe-se que 53,8% dos pacientes ainda são atendidos com anestesia geral por causa das alterações comportamentais e dificuldades de sociabilização. Para tentar mudar esse quadro, ela desenvolveu uma técnica de condicionamento e abordagem lúdica que, ela garante, tem bons resultados em substituir a sedação. “O melhor (dessa abordagem) é que eles são atendidos no consultório, perto de seus pais, sem anestesia geral e, com certeza, com um custo reduzido. A técnica de abordagem é tudo para esses pacientes. O ideal seria o treinamento dos cirurgiões-dentistas com esse tipo de técnica. Além de melhor aceitas pelos pais, são mais humanizadas. Hoje, todos estão muito atentos às melhorias na qualidade de vida. E devemos nos adequar a essa realidade”, finaliza.

Postado por Blogger no Medicina Oral e Odontologia Hospitalar em 3/25/2012

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TEXTO 2

Fonte: http://www.odontomagazine.com.br/pt/2012/03/22/contencao-fisica-na-odontologia/

Entrevista sobre contenção em Odontologia com o Especialista José Reynaldo Figueiredo.

Por: Vanessa Navarro

Odonto Magazine – O que se pode entender por contenção na prática odontológica?
José Reynaldo Figueiredo –
Bem, para começar é necessário explicar que não há um consenso na definição de contenção. Muitos profissionais podem considerar que apenas um abridor de boca seja definido como uma forma de contenção, afinal o abridor está contendo o fechamento da boca; e outros consideram, em casos mais complexos, até a necessidade de uma anestesia geral para conseguir executar adequadamente procedimentos que seriam simples em pacientes colaborativos. A intenção é que se promova um atendimento tranquilo, sem riscos de ferimentos e traumas para pacientes e profissionais durante a execução de procedimentos em pacientes que não permitem uma abordagem serena, segura e de qualidade, sem movimentações voluntárias ou involuntárias.

Odonto Magazine – Quais são os tipos de contenção mais empregados pelos profissionais de saúde bucal?
José Reynaldo Figueiredo – A contenção física, que pode contar com o apoio dos responsáveis pelo paciente, pela equipe auxiliar e equipamentos apropriados; e a contenção química, que vai desde o uso de sedação consciente, passando por medicações previamente receitadas até a anestesia geral.
Costumo dizer que existe outro tipo de contenção: a criação de vínculo afetivo com o paciente. É uma forma mais humana de abordagem, onde deve se esgotar todo repertório de argumentos para a conscientização do paciente sobre a necessidade do tratamento odontológico, utilizando-se de palavras de apoio, compreensão das condições clínicas dos pacientes e abusando de gestos de carinho e respeito ao paciente.

Odonto Magazine – Quando é indicado o uso de contenção física durante o tratamento dos pacientes?
José Reynaldo Figueiredo – A contenção física é indicada em pacientes com necessidades especiais (PNE) que apresentam incoordenação motora acentuada; pacientes com atraso de desenvolvimento intelectual, que não permitem abordagem adequada; e crianças muito pequenas, que não colaboram com o tratamento. Tudo isso quando é possível manter o controle da situação.

Odonto Magazine – Quais são as contraindicações do procedimento?
José Reynaldo Figueiredo – A primeira contraindicação é a não aceitação por parte dos pais ou responsáveis. Também existe a inabilidade do profissional e da equipe que o assessora; e quando há riscos de traumas psicológicos ou físicos no paciente. Nestas condições, a contenção física não é uma ferramenta de auxílio ao profissional e, sim, um instrumento de tortura.

Odonto Magazine – Quando a contenção física se torna indispensável para a segurança do paciente e do profissional de saúde bucal?
José Reynaldo Figueiredo – Existem situações na clínica de pacientes com necessidades especiais e também de odontopediatria que não são confortáveis tanto para profissionais como para pacientes. Por exemplo, na odontopediatria, todo profissional sabe que acidentes acontecem, e com crianças eles são mais doídos. Imagine uma criança pequena que sofra um trauma dentário e que necessite intervenção imediata do cirurgião-dentista. Em determinadas circunstâncias não há conversa que acalme a criança (e às vezes nem os pais) e a convença da necessidade de se comportar, mas o problema está ali e é preciso resolver. Em prontos-socorros de hospitais isso é muito comum. Na prática odontológica isso causa uma celeuma sem fim. O mesmo acorre com pacientes com necessidades especiais.
Na ânsia de não corromper os direitos do cidadão, aquele PNE que por desventura apresente um quadro infeccioso ou dor e não tem acesso a um tratamento especializado e de alto custo, por exemplo, uma internação hospitalar, tem que conviver com aquele desconforto, para não dizer desespero, por muito tempo.
O não uso da contenção não é apenas desumano, é hipócrita.

Odonto Magazine – Quais são as orientações indispensáveis aos profissionais para a realização do procedimento?
José Reynaldo Figueiredo – As contenções deverão ser utilizadas quando absolutamente necessárias e a restrição deverá ser a mínima possível. Nunca deverá ser utilizada como forma de punição àquele paciente não colaborador e não deverá ser utilizada apenas para a conveniência do operador.
Orientações prévias deverão ser dadas aos responsáveis e aos pacientes, o responsável deverá acompanhar o procedimento do começo ao fim, para ciência de ocorrências inoportunas e o informe de consentimento deverá ser solicitado.

Odonto Magazine – Como o dentista e a equipe auxiliar devem agir para que não aconteçam imprevistos durante o procedimento odontológico acompanhado da contenção física?
José Reynaldo Figueiredo – Antes de tudo, o profissional deverá estar habilitado para tal atuação. De nada adianta querer fazer uma contenção física e causar mais transtornos ao paciente: o nome disso é iatrogenia.

Odonto Magazine – Como o profissional de saúde bucal deve agir para não apresentar a contenção física como uma forma de castigo?
José Reynaldo Figueiredo – Para alguns casos de PNE essa é uma discussão vã. Às vezes o cognitivo do paciente impede que ele compreenda o gesto do profissional, para isso, o cuidador deverá ser muito bem orientado, e no mais das vezes ele compreende que a punição maior está em deixar seu protegido sofrendo por uma afecção odontológica.
Quanto aos pacientes com cognitivo preservado, cabe ao cirurgião-dentista praticar mais do que Odontologia, ele deve ser persuasivo, sensível e responsável em sua atuação.

Odonto Magazine – Como realizar a prática seguindo os parâmetros legais?
José Reynaldo Figueiredo – Não existem normas na legislação que padronizem essa atuação, mas o código de ética da Odontologia traz alguns artigos que podem nortear essa práxis:
No capítulo I, Art. 2º. A Odontologia é uma profissão que se exerce, em benefício da saúde do ser humano e da coletividade, sem discriminação de qualquer forma ou pretexto. No capítulo V, Art. 7º. inciso V. Constitui infração ética: executar ou propor tratamento desnecessário ou para o qual não esteja capacitado.
Fazendo a hermenêutica dos artigos, não é difícil deduzir que devemos atender o paciente em condições adversas, mas devemos, principalmente, estar preparados para executar o procedimento.

Odonto Magazine – Qual é a importância da participação dos pais ou responsáveis durante o processo?
José Reynaldo Figueiredo – A presença dos pais é fundamental, tanto no consentimento quanto na própria colaboração junto ao dentista, seja no apoio psicológico ou no prático.

Odonto Magazine – Como a prática da contenção física em pacientes com necessidades especiais é vista pelo Conselho Federal de Odontologia?
José Reynaldo Figueiredo – Ao que me conste, até o momento, o CFO é alheio a essa discussão. Não há um “guideline” que os dentistas possam se nortear.

Odonto Magazine – Qual conselho o senhor deixaria para o profissional de saúde bucal que busca oferecer atendimento eficiente e eficaz aos pacientes com necessidades especiais?
José Reynaldo Figueiredo – Não há como fugir do óbvio: estudar, estudar, estudar sempre e aprender com os insucessos. Infelizmente não há uma receita pronta. Cada caso é um caso. Compreendo, perfeitamente, que o assunto é polêmico, mas, ao mesmo tempo, instigante.


José Reynaldo Figueiredo
Cirurgião-dentista. Doutor em Odontologia Social pela Faculdade de Odontologia da USP. Mestre em Odontologia Legal e Deontologia pela USP. Especialista em Odontopediatria e em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Vice-presidente da Associação Brasileira de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais (ABOPE). Cirurgião-dentista da Associação de Assistência à Criança Deficiente – AACD. Membro do Conselho Científico da Revista Odonto Magazine.

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