Oclusão e DTM

Apesar de não fazer parte do grupo de especialistas em disfunções da ATM que acham que tudo é causado por problemas oclusais, também não sou do time dos que acham que a participação da oclusão seja zero.

Se já fui devidamente convencido que a participação da oclusão é muitíssimo menor do que se supunha há 20 anos, ainda não me foi provado cientificamente que ela seja nula.

Alguns artigos, como o publicado no Quad Oral de outubro por Wang e colaboradores, trazem um conceito que, a primeira vista, tende a valorizar a participação da oclusão (ou de desvios da oclusão ideal) na gênese das DTMs.

Mas a análise mais detalhada do trabalho mostra um erro conceitual grave que em nenhum momento foi descrito no relato.

Muito resumidamente ele conclui que alterações oclusais detectáveis por dispositivos digitais são mais prevalentes em sujeitos com DTM do que em sujeitos saudáveis.

E parte dessa premissa única para afirmar que seria cabível a realização de ajustes oclusais ou outros procedimentos irreversíveis para corrigir esta desarmonia, e com isso recolocasse as coisas “em ordem” e as DTMs se extinguissem.

No entanto, os autores não mencionam a possibilidade de que as desarmonias fossem causadas (e não causadoras) pelas DTMs. Afinal, a dor é um importante gerador de incoordenação muscular e desequilíbrio proprioceptivo.

Da forma como se concebeu o trabalho não é possível concluir que ajustes oclusais tratariam as DTM, já que o estudo foi somente comparativo e não se acompanhou a evolução dos casos com DTM.

Um estudo mais coerente que envolvesse esta metodologia deveria acompanhar um grande grupo de pessoas saudáveis durante um longo período de tempo, procurando significância estatística entre as alterações oclusais e a incidência de novos casos de DTM.

A meu ver o estudo não contribui para a melhor compreensão da existência de fatores oclusais como responsáveis pela origem de DTMs, apesar de constatar uma maior instabilidade oclusal nestes pacientes.

“Manaus é logo ali…”

Jurei para minha esposa que não aceitaria mais nenhum convite para eventos este ano, fora do estado do RJ.

Aí veio o convite das queridas Dra. Vera Louzada (CRO-AM) e colegas de Comissão de OH do Amazonas, Keuly Soares e Eliane Aranha.

Eu, sabendo não poder recusar, disse para minha esposa: “Manaus é logo ali…”. Aí minha promessa foi remanejada e começou a valer a partir desta semana, para que minha palavra e relação matrimonial voltassem a normalidade.

Apesar da distância, diferença de fuso e cansaço (já que vinha direto de Juiz de Fora) tudo compensou quando vi a quantidade de acadêmicos de Odontologia e CDs que se mobilizaram, em um calor de 45º, para ir ao evento da UEA e CROAM sobre a Odontologia Hospitalar (verdade que o auditório da Assembleia Legislativa, onde houve o congresso, estava até gelado). São coisas que não tem preço.

Parabéns aos colegas amazonenses pela organização e acolhimento. Prometo voltar um dia com mais calma para conhecer as maravilhas de sua cidade e estado.

Juiz de Fora e a Medicina Oral

Fui convidado para ministrar uma palestra no 8º ODONTOMATA, congresso odontológico da Zona da Mata mineira. De início estranhei pois não conhecia ninguém de lá, mas como é uma cidade próxima ao Rio não recusei, apesar de não ter sido comunicado inicialmente sobre qual tema seria minha aula.

Depois de algumas idas e vindas o tema escolhido foi o controle odontológico da apneia do sono e ronco, mas, saber de onde havia partido o convite ainda me deixava curioso.

A dúvida se desfez quando optei pela ida à abertura do 8º ODONTOMATA e conheci a Profa. Patrícia Touma, que me informou que um certo periodontista da UERJ (de nome Carlos Marcelo Figueiredo) havia me aprontado esta honrosa indicação.

Como tudo a minha volta conspira para a Medicina Oral, recebi um exemplar de um livro escrito em homenagem a ABOJF pela jornalista Gisele Simões. Abri na página que biografava o saudoso Prof. Augusto Coelho e Souza (ACS) - que morou, clinicou e ensinou em JF por muito tempo – e  descobri que já em 1905 ele lutava para lecionar Fisiologia Geral para CDs (pois o currículo, elaborado por médicos, apenas recomendava um resumo básico).

O Prof. Cadetrático de Fisiologia Eduardo de Menezes concordou com ACS e disse aos seus pares: “é preciso que o CD saiba fisiologia geral para aprender como da causa se passa aos efeitos”. 

Inspirado pelo Prof. Menezes, a mesma luta ACS travou ao exigir que fosse ministrada a Patologia Geral aos alunos de Odontologia, e não apenas a Patologia Dentária, como se preconizava.

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Em Juiz de Fora e em Augusto Coelho e Souza encontrei mais um motivo para continuar lutando para que a Odontologia encontre seu devido lugar.

Entregue a ata do II Encontro das Comissões

Em 20 de outubro último foi enviado por email ao Conselho Regional de Odontologia do Rio de Janeiro a ata final do II Encontro das Comissões de Odontologia Hospitalar dos Conselhos.

No documento, elaborado pela diligente Comissão de Odontologia Hospitalar do CRORJ, estão todas as decisões tomadas pelos representantes de 17 estados presentes ao encontro (mais 2 estados enviaram procurações que contudo, não foram aceitas pela assembleia), além dos comentários dos representantes da SOBEP, ABOPE, ABRAOH, CRORJ e CFO.

É a maturação de um processo que se iniciou em 2009 e conseguiu, em tempo recorde, unir o país em nome de um ideal.

Em breve os demais estados, além do CFO, estarão recebendo a cópia definitiva do documento.

A Medicina Oral à brasileira

Conforme sabiamente mencionado pela representante da SOBEP, e por outros colegas presentes no II Encontro das Comissões de Odontologia Hospitalar dos Conselhos de Odontologia, a Medicina Oral praticada nos EUA é exercida conjuntamente, aqui no Brasil, pelos especialistas em Estomatologia, em OPNE (aqui incluindo a Odontogeriatria) e em Dor Orofacial.

Apesar disso não há similaridade entre a formação destes especialistas brasileiros com os estadunidenses, já que lá existe a obrigatoriedade (de acordo com a ADA, que corresponde ao CFO no Brasil) de se cursar uma residência de pelo menos 2 anos em regime integral, incluindo uma vivência hospitalar, como ocorre na formação médica em geral.

No Brasil algo similar só existe na USP, onde há aproximadamente 30 anos especialistas em Dor Orofacial e OPNE são habilitados após frequentarem uma residência em Odontologia Hospitalar em moldes semelhantes aos exigidos nos EUA para a Medicina Oral.

Apesar da excelência da formação recomendada pela ADA e AAOM desde os anos 1950, há o constante compromisso de aprimoramento desta importante formação, o que se comprova com recente documento enviado por comissão da ADA aos membros da AAOM para a acreditação dos programas de formação em Medicina Oral.

A criação das Comissões de Odontologia Hospitalar pelos Conselhos Regionais de Odontologia e sua futura vinculação ao CFO pode, e pretende, auxiliar no aperfeiçoamento do modelo matriz de nosso vizinho do norte em conjunto com as entidades brasileiras responsáveis pela profissão, em parceria com os coordenadores e responsáveis pelas residências odontológicas já existentes no Brasil.

Assim a Odontologia, os profissionais e os pacientes só terão a ganhar com esta “Medicina Oral à brasileira”.