Odontologia deve ser ensinada junto com a Medicina

A ideia de que Odontologia e Medicina têm as mesmas necessidades acadêmicas são defendidas neste portal desde sua existência. Mas, há muitos cirurgiões dentistas no meio acadêmico e gestores da educação em geral que não pensam assim.

Como o modelo de ensino odontológico no país ainda privilegia as ações restauradoras e técnicas muito do potencial dos futuros cirurgiões dentistas se perde pela falta de capacidade de lidar com as situações do conhecimento básico.

No editorial de dezembro da principal revista mundial sobre Medicina Oral, da Academia Americana de Medicina Oral, é apresentada esta ideia baseada em modelos acadêmicos que vêm sendo aplicados em Harvard e em outras universidades dos EUA pelo Professor Leon Assael, um Cirurgião Bucomaxilofacial.

Veja o texto original em: http://download.journals.elsevierhealth.com/pdfs/journals/2212-4403/PIIS2212440312015064.pdf.

Abaixo alguns tópicos do texto que nos fazem refletir:

 ”Programas estruturados surgiram nas últimas décadas para promover a educação baseada na escola médica para dentistas. Eu vivi muito desta história pessoalmente,… “

“A educação em separado, apesar de igual, é sempre desigual. As escolas médicas têm acesso a maiores recursos e tem os líderes de conteúdo em seu meio…”

“Cursos sobre as bases moleculares das doenças, patologia, anatomia, microbiologia e neurociência, entre outras, foram prejudicadas com o currículo tornando-se mais focado nos aspectos orais da doença e para o desenvolvimento de habilidades clínicas…”

“Em um curso de anatomia humana de uma faculdade de odontologia, um aviso foi deixado em um livro indicando: “dentistas param por aqui.” O que estava “abaixo da linha” eram a pelve e as extremidades…”

“Quando um acadêmico de odontologia (ou residente) roda como faz um estudante de medicina em um serviço clínico eles são imediatamente reconhecidos (…) têm a oportunidade de aprender e ensinar uma nova geração de profissionais de saúde sobre questões de saúde bucal. Não só os seus colegas de classe, mas também os enfermeiros, farmacêuticos e outros no ambiente de educação interprofissional aprendem sobre a saúde bucal e começam a valorizá-la…”

“A Odontologia não é uma profissão independente, porque é mais fácil, porque é uma profissão de segunda escolha ou porque é preciso saber a menos para ser dentista…”

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Há associação entre infarto e extração de dentes infectados

Um estudo realizado na Noruega correlaciona o aparecimento do infarto do miocárdio com a realização de exodontia de dentes por motivo de infecção endo ou periodontal.

Vale esclarecer que a pesquisa foi feita em um grupo de indivíduos (alguns com histórico de infarto do miocárdio e outros sem) através de questionário, onde foram perguntados os motivos de haver sido feita a extração.

Portanto, o infarto não ocorreu logo após a extração…

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Fonte: http://www.nature.com/ebd/journal/v13/n4/abs/6400894a.html?WT.ec_id=EBD-201212

Summary Case-Control/Oral surgery

Evidence-Based Dentistry (2012) 13, 110.

Myocardial infarction and tooth extraction associated

Question: Are tooth extractions for dental infections compared with extractions for non-infection reasons associated with non-fatal myocardial infarction (MI)?

Haheim LL, Olsen I, Ronningen KS. Association between tooth extraction due to infection and myocardial infarction. Community Dent Oral Epidemiol 2011; 39: 393–397.

Address for correspondence: Lise Lund Haheim, Institute of Oral Biology, Faculty of Dentistry, University of Oslo, Oslo, Norway. E-mail: a.l.haheim@odont.uio.no

Abstract

Study design

This was a nested case control study within the Oslo study, which began in 1972/73 with the principle aim of studying prevention and epidemiology of cardiovascular diseases.

Intervention

Within the Oslo study, men who attended for examination in both 1972/73 and 2000 with a self-reported history of MI (n=548) were compared to controls (n=625) selected at random from the same cohort, and matched by five-year strata for age.

Outcome measure

Information on history of tooth extractions and the reasons for these extractions were obtained from a self-reported questionnaire. Reasons for tooth extractions were subgrouped into infection (marginal periodontitis and apical infection) or trauma/other causes.

Results

Investigation of the association between the reason for extraction and MI, using prospective logistic analysis, found that extractions attributed to dental infections were significant predictors for risk factors in both 1972/73 and 2000.

Conclusions

There was an increased association between MI and tooth extraction due to dental infection compared with tooth extraction for trauma and other reasons.

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A enfermagem e a mucosite associada ao TMO

A participação das equipes de enfermagem na evidenciação e no tratamento das afecções bucais dentro do ambiente hospitalar não são um luxo ou uma missão para abnegados. Trata-se de uma necessidade médico-odontológica que se deixada de lado pode trazer consequências sérias aos pacientes internados, especialmente nos casos que envolvam o tratamento antineoplásico.

Na revisão sistemática realizada por um grupo de enfermeiras e por um médico gastroenterologista, e publicada na Acta Paulista de Enfermagem (2011;24(4):563-70), foram descritos vários tratamentos preconizados na literatura mundial para o tratamento da mucosite, em seus variados graus.

Segundo a revisão (onde foram identificados 22 estudos que descreveram 14 intervenções tópicas e sistêmicas para o tratamento da mucosite oral), os tratamentos considerados efetivos para o controle da mucosite foram a crioterapia, clorexidine, glutamina, laser e o traumeel para o uso tópico e, para o uso sistêmico, a amifostine, granulokine e palifermin.

Citando a questão da competência profissional das enfermeiras, os autores concluem ao fim do artigo:

“No entanto, tendo em vista a heterogeneidade dos resultados das intervenções analisadas, assim como a falta de melhor elucidação para a prática assistencial, considera-se necessário o desenvolvimento de pesquisas com rigor metodológico para identificar a efetividade de terapias tópicas para a reparação celular das mucosas, sobretudo no âmbito da competência profissional da enfermeira.”

Ainda sobre a questão da competência profissional, e apesar da qualidade da revisão, e da evidente necessidade de cooperação interprofissional no âmbito hospitalar, não podemos deixar de lembrar aqui que o artigo subtraiu a também essencial presença do cirurgião dentista neste contexto.

Afinal a competência para diagnosticar e supervisionar o tratamento das afecções da mucosa oral são do CD. E cabe também, exclusivamente a este profissional, a realização dos procedimentos de sua competência, como a aplicação de laser terapêutico.

Assim, o papel da equipe de enfermagem é, de acordo com a lei vigente:

1- a inspeção oral rotineira do paciente;

2- a comunicação de presença de afecções e agravos encontrados ao Serviço de Odontologia (ou CDs contratados como pareceristas);

3- a realização de rotinas de higiene oral geral ou específica, sendo esta última sob supervisão de um CD, especialmente em casos de mucosites, estomatites, sangramento periodontal, etc.;

4- ministrar medicamentos ou seguir recomendações prescritos pelo CD direcionado ao tratamento das doenças bucais;

4- auxílio ao CD para a realização de procedimentos de sua competência exclusiva.

(*) Observação do Portal da Medicina Oral: a inexistência de um Serviço de Odontologia ou CD no âmbito hospitalar não pode ser usada como justificativa para que outros profissionais, não capacitados, emitam diagnóstico, planejem o tratamento ou realizem procedimentos para os quais não sejam habilitados. Isto não significa que a interprofissionalidade não seja algo necessário, salutar e complementar. Afinal, o paciente não pode ficar desprotegido.

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Encontro de Odontologia Hospitalar em Campos

Em mais uma oportunidade de conhecer ideias, pessoas e pontos de vistas diferentes foi realizado nesta semana o encontro de Odontologia Hospitalar  de Campos dos Goytacazes. Uma iniciativa da Dentista Sanitarista Rita Duarte e equipe.

Segue abaixo a aula que ministrei, revisada e abordando as questões legais, legislativas, políticas e institucionais. Também opiniões e novas possibilidades para a Odontologia Hospitalar.

Preencha o formulário e baixe a aula aqui.

Veja ainda algumas imagens:

Dr. Paulo Pimentel e Dra. Rita Duarte

Paulo Pimentel e a Assistente Social Margareth Vianna do INCA

E o Prof. Walmyr Mello do Hospital Samaritano – SP

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Mais residências multiprofissionais para os cirurgiões dentistas

Mais residências multiprofissionais serão disponibilizadas em 2013. Infelizmente para nós dentistas, nenhuma delas em programas que tenham tido o aval do CFO (com exceção das que envolvem a CTBMF). São autorizadas unilateralmente pelo Ministério da Educação e da Saúde e chanceladas por entidades acadêmicas como esta da Universidade Federal de Goiás (que tem vagas para programas envolvendo CDs na hematologia, pediatria e cuidados intensivos, veja aqui).

Seus conteúdos programáticos, sua carga horária, qualificação dos docentes e preceptores, os critérios para o corpo discente, os locais de atuação e os serviços a serem realizados pelos residentes não possuem a normatização da principal entidade reguladora e fiscalizadora da Odontologia no Brasil, o CFO.

Após formados, os residentes, também infelizmente, não terão garantidos os reconhecimentos de seus diplomas pelo CFO e assim não poderão ser denominados especialistas. Também não poderão se auto-intitular “Oriundo de residência multiprofissional reconhecidas pelo MEC-MS” e muito menos divulgar isso já que não é permitido pelo código de ética da profissão, apesar de dedicarem quase 6 mil horas de carga horária e de adquirirem vasto conhecimento e vivências no ambiente hospitalar. Além disso, não poderão se inscrever em concursos que sejam direcionados aos especialistas do CFO, embora possam tentar por vias legais.

Mas, como qualquer cirurgião dentista, estarão aptos a competir pelo promissor e disputado mercado da Odontologia Hospitalar com os especialistas já reconhecidos pelo CFO. Muito embora o CFO, até hoje, nunca tenha exigido que os dentistas especialistas (ainda excetuando a CTBMF) tenham tido a fundamental vivência hospitalar na sua formação, apesar de constar no código de ética a necessidade de normatização desta atuação pelas regras do CFO.

Você quer ajudar a corrigir esta distorção que não é boa para ninguém?

Procure a Comissão de Odontologia Hospitalar do seu CRO, deixe seu depoimento nos comentários abaixo ou torça para que ocorra um encontro este ano onde todas estas arestas sejam aparadas para a concordância e felicidade geral, afinal o mundo parece que não vai acabar mesmo.

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Bruxismo do sono é manifestação bucal de alteração sistêmica

Há séculos que o bruxismo representa um grande problema para a Odontologia, tanto pelas alterações que provoca nas estruturas bucais, como o desgaste dentário, fraturas de restaurações, piora da doença periodontal e disfunção da ATM, quanto pela dificuldade em se definir sua verdadeira origem.

Dentre as causas do bruxismo citadas por diversos autores estão o estresse, a reação a fármacos, associação com doenças psiconeurológicas e, menos aceito atualmente, uma reação motora reflexa à alterações dentárias e oclusais.

Várias hipóteses já foram levantadas sobre as causas do bruxismo em geral, mas pelo menos quando se trata do bruxismo do sono, parece haver cada vez mais certeza que este faz parte de uma ativação simpática sistêmica que ocorre em ciclos durante o sono.

Assim, no bruxismo do sono há uma ativação motora mastigatória rítmica (RMMA), associada ao aumento da função cardiorespiratória, vasoconstricção periférica e superficialização dos estágios do sono, podendo culminar em despertares e movimentos de todo corpo.

Em um trabalho recente de um dos grupos mais importantes do mundo no estudo das alterações do sono, a pesquisadora Angela Nashed observou que o bruxismo do sono, quando associado aos despertares e movimentos do corpo, está estatisticamente relacionado à um aumento da pressão arterial sistêmica. Este aumento da PAS é mais significativo se a RMMA ocorre com a movimentação do corpo.

Este trabalho eleva o status do bruxismo a uma manifestação bucal de doença sistêmica que, através da observação atenta do cirurgião dentista, pode levar ao diagnóstico precoce da silenciosa hipertensão arterial sistêmica, ou pelo menos de sua manifestação durante o sono (veja aqui o artigo publicado na Revista Sleep).

Obviamente há necessidade de realização de uma polissonografia para a detecção tanto das contrações massetéricas e temporais, quanto das alterações autonômicas de origem simpática.

Fica assim o alerta para os pacientes, cirurgiões dentistas e laboratórios de estudo do sono.

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